Livro: Artacho Jurado – Arquitetura Proibida
19 Maio, 2008
Acontece amanhã, dia 19 de maio, o lançamento do livro ‘Artacho Jurado – Arquitetura Proibida’ de Ruy Eduardo Debs Franco, na Saraiva do ex-Shopping Paulista, às 19hs. Para quem não sabe, Artacho Jurado foi um empreiteiro que, nas décadas de 30 e 40, driblou todo o elitismo do CREA junto aos arquitetos para espalhar pela São Paulo cinzenta edifícios residenciais lindos, coloridos e hoje em dia disputadíssimos.
Por não ter formação ou licença para assinar projetos, Artacho sempre fez uso da assinatura de terceiros para pôr de pé o que ele acreditava que faltava na cidade. São prédios revestidos de cima a baixo com pastilhas coloridas, em sua maioria rosa, com plantas de excelente dsitribuição, unindo o que havia de mais interessante do modernismo com a art nouveau e deco. Foi ele também que adicionou aos projetos residenciais as áreas comuns, hoje tão caras ao mercado imobiliário. Lançando teorias sobre o lazer comunitário, ele sempre incluía em seus projetos jardins, piscinas, saunas, bares e salões de festas. Caso típico é aquele imenso bloco envidraçado sobre o Edifício Viadutos no final da Av. Xavier de Toledo, que muitos compraram a uma nave espacial.
Com uma arquitetura extremamente formalista, que contorcias as leis modernistas de Le Corbusier, e atuando numa área super regimentada, Artacho foi desprezado pela crítica e sofreu represálias de arquitetos renomados, que o excluíram da história da arquitetura da época.



Recentemente, um movimento de valorização do vintage, que acometeu também o mercado imobiliário, fez com que suas obras voltassem a figurar entre as construções mais valorizadas da cidade. Além do Viadutos, temos outros edifícios muito conservados e conhecidos, como o Cinderela, na Rua Maranhão, o Louvre, na Av. São Luis, o Bretagne, na Av. Higienópolis e o Verde Mar, na orla de Santos.
Apenas mais uma curiosidade: a revista hype inglesa Wallpaper considerou o Edifício Bretagne um dos melhores para se viver no mundo.
(A primeira foto é do Ed. Louvre, e é minha. A segunda e a terceira são o Viadutos e o Bretagne, são do Claudio Zeiger e foram tiradas daqui. A última é o Verde Mar e foi tirada daqui. Mais fotos podem ser vistas aqui.)
X-Fail em São Paulo
12 Maio, 2008
E inauguraram finalmente o mais novo elefante branco da arquitetura brasileira: a ponte Octávio Frias de Oliveira. Passando sobre a Marginal Pinheiros, ela possui duas pistas curvas de 190m cada estaiadas a um imenso pilar em ‘X’ de 138m de altura, equivalentes a um prédio de 46 andares. A obra custou ‘módicos’ 260 milhões de reais, e já foi adotada pelos paulistanos, ávidos por qualquer marco que tente embelezar a cidade, como cartão-postal. Kevin Lynch se revolve no túmulo.
São Paulo há muito busca algum tipo de identidade visual em meio ao caos e à feiúra que dominou cada ruela. Primeiro elevaram a Avenida Paulista a status de marco. Convenhamos, uma avenida larga e longa, ladeada por uma série de prédios nem tão altos, nem tão bonitos, nem tão modernos assim. Apenas mais uma avenida comercial, como em qualquer grande cidade do mundo. Catedral da Sé, Parque do Ibirapuera, tudo mais do mesmo. O MASP sim tem porte para assumir tal posto. Uma construção única e universal na sua proposta, em uma localização perfeita. Mas brochou, graças à sua lamentável administração, e à assombrosa paisagem que tomou conta da vista do térreo. Assim considero as carambolas e melancias de Ruy Ohtake como um sopro de novidade (questões estéticas de lado).
Agora prefeituras e empresas de engenharia nos enfiam goela abaixo o que eles chamam de uma construção única no mundo, como se fosse caramelo para criança. ‘A única ponte estaiada curva dupla do mundo!’ Óoooo! Todos os engenheiros que comentam a obra insistem em ressaltar a dificuldade de se calcular as forças exercidas sobre os estais em pontes curvas, ainda mais no caso da dupla. A Europa, que tem as melhores tecnologias e os melhores projetistas do mundo nesse aspecto, fez algumas poucas e simples. Por que eles nunca pensaram em fazer uma dupla, pergunto eu? Talvez pela grande dificuldade, com péssimo resultado estético e alto custo de obra? Então para que mesmo os brasileiros pernósticos a ponto de quererem fazer a primeira? O mundo deve estar rindo da nossa cara, como nós tão deliberadamente fazemos em relação aos portugueses.
O que mais me incomoda é a facilidade como a população leiga se animou com o monstro X. A falta de repertório faz com que as pessoas achem aquele novelo amarelo bonito, só porque é algo nunca visto. Mas não é preciso ser pós-graduado para perceber que a composição não tem ritmo, esbeltez, harmonia ou ordem. É uma teia de aranha fluorescente com uma grande bigorna Acme no meio. Eu preferia até a divertidíssima ponte-piada do Marcio Kogan. Se ao menos todos tivessem a oportunidade de conhecer as lindas pontes de Sir Norman Foster, ou melhor, as esculturas em forma de harpa do mestre Santiago Calatrava.





Isso sim, pode-se chamar de poesias que cruzam rios. A nossa é apenas mais uma forma frustrada de conter o trânsito cada vez mais enlouquecedor. Terminar o Rodoanel, melhorar o transporte público, acabar com o inchaço urbano… quando será que os projetos urbanos serão mais estratégicos e menos paliativos? Em tempo, quantos quilômetros de metrô se constroem com 260 milhões?
Loeben Justizzentrum, Áustria
5 Maio, 2008
A notícia é velha, já que foi inaugurado em março de 2005, mas para os brasileiros nada pode ser mais chocante do que imaginar que este albergue de luxo na verdade é um centro correcional em Steiermark, na Áustria. Isso mesmo, uma CADEIA!!!

O Loeben Justizzentrum é um complexo de justiça: engloba todas as acomodações e instalações dos cárceres (inclui sala de ginástica, quartos para visitas e mais), uma corte de justiça e escritórios da procuradoria. Com capacidade para 205 presidiários, pode-se imaginar como a detenção pode, sim, servir para a ressocialização dos criminosos.
Claro que aqui precisaríamos construir o Estado do Pará inteiro só de cadeias dessas para abrigar de trombadinhas de sinal a jogadores de filhos pela janela. Fora que ia ter uma fila bem grande de gente querendo entrar voluntariamente. Agora, convenhamos, tem gente que não devia nem passar pela porta de um lugar desses. Como diria meu pai, esses deveriam ser pendurados pelo saco em praça pública.
Salve-se quem tiver uma Mecedes!
4 Março, 2008
A revista Casa Vogue pode ser considerada talvez não tão felizmente assim, a melhor publicação mensal atual de arquitetura de interiores do Brasil. Afinal de contas, o mercado editorial do setor se tornou um monstro caquético que junta auto-ajuda-da-decoração com desfiles de projetos ‘jabazentos’ completamente insípidos e deslumbrados com o Alucobond e o vidro (’ainda esse assunto?’ diria João Perassolo). A Casa Vogue talvez seja a única que busca projetos com alguma personalidade no país, apesar de muitas vezes se entregar a modismos auto-inflingidos e babação de ovo para os bambambãs. Pode ser que a culpa seja da arquitetura brasileira em geral, mas isso não vem ao caso.
Todos os anos, a Casa Vogue lança duas edições especiais, uma em janeiro com o ‘melhor’ da decoração, e em fevereiro, o ‘melhor’ da arquitetura nacional. Essas publicações, que se propõem a ser o crème de la crème do assunto, como tudo nas terras americanas do sul, se tornaram um extenso e caro rol de projetos risíveis com espaços comprados a preço de eletrodoméstico de inox. Pouca coisa se salva, e geralmente são os projetos dos convidados, que praticamente prestam um favor à revista em colocar seu trabalho lá.
Tudo isso para dizer que está rolando maior bafafá em torno do projeto publicado na ultima edição de fevereiro pelo grande arquiteto Marcio Kogan,
que não teve dó em colocar seu projeto vencedor de menção honrosa em um concurso no ano passado: LePont Gucci. A proposta era que os concorrentes projetassem uma ponte de ligação entre o eminente Shopping Cidade Jardim e a Daslu, evitando uma pequena favela às margens do Rio Pinheiros. Claro que a história toda era uma gozação com o ’setor de luxo’ que devora o urbanismo de São Paulo, e o aparecimento de um projeto desses numa revista como essa foi a mais saborosa cereja do bolo possível. Até a Vejinha entrou no bate-boca e colocou o arquiteto on the stand.
Muito barulho por nada, porque os revoltadinhos da Grow com essa história são os mesmos que se pudessem não titubeariam em construir alguma das propostas. A nós mortais, e reles usuários de espaços públicos, resta nos divertir com esta e as outras propostas ‘guccíssimas’ apresentadas no concurso, e esperar o Dia do Índio para poder usufruir dessas regalias.





